quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Por amar demais


Um homem, que não era livre, mas tornou-se ao fim, passou por um dilema desafiador: ser feliz ou não. Ou não.  Com: uma mulher, que não era livre, mas tornou-se no fim – carregava consigo um machado mágico – ceifou os sonhos daquele que mantinha preso aos seus pés. Negou-lhe poderes, obrigou-o a amá-la, fez da vida um fiapo de linha.

Nas tarde de domingo, sentavam-se à beira de si, juntos, para esgarçarem o peito, encherem-no de interrogações e se embriagarem de fel. O movimento contínuo das lágrimas caindo abriu a brecha que, visto por fora, podia-se enxergar a angústia de viverem enclausurados.

As flores colhidas no campo pelo rapaz faleciam em dor nas mãos da moça, que, por sua vez, amarravam-nas como adornos em si. O sorriso machucado dele fora escondido diversas vezes com as mordaças da ignorância dela.

Ela era o pesar e ele, o amor rejeitado.

Certo dia, sentados no córrego, ele disse:

- Quero ser feliz.

E ela indagou:

- Você não quer ser mais meu?

E ele, mais uma vez:

- Quero ser feliz. Mas, sendo assim, você nunca será feliz também. Ou eu ou você! Ver-te presa a mim, faz a liberdade se afastar como nessa corredeira de águas borbulhentas...

- Mas você pertence a mim e...

Interrompeu-a:

- Não posso ser quem sou, porque pertenço a ti e...

- Eu te amo do meu jeito!

- Eu te amo com limites!

E uma súbita ação: empurrou-a no córrego. Ela não sabia nadar. E foi-se sem ele aos seus pés.

Com angústia e satisfação, ele gritou-lhe: Amo você, mas optei por ser livre e feliz.

E assim o foi.