domingo, 2 de dezembro de 2012

Verde-vermelho


Numa tarde de fim
verão florido e animal
cantavam em bosques
príncipes e fadas
e de repente eram árvores
e gaviões
vento turvo e feroz
mas a natureza se recusara
a amamentar do leite frio
sonoro, lúgubre
singela pedra, o corpo sujo.

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domingo, 4 de novembro de 2012

Amor ao inimigo


Queria ser teu corpo
Dominar seu sangue
Rasgar-te vivo e liso
Dentro.
E você ser eu
Bater-me a boca
Com o vendo escaldante
Frente com frente
Rolar nas ruas grossas
Debatendo, batendo, tendo
Tudo o que não suporto em ti
E por isso quero ser-te
Por uma noite de lua cheia, vazia
De nós
Que me enxerga e me devora
Que é tão imensa longe
Mas, perto, é chão.
Sinta-me. Sinto-te.
Beija-me-você
Devolva-me o gosto ruim
Dessa boca vil.
Não suportei.
Quando a luz chegar
Por dentro
Serás madeira talhada
E podre
Assinada por mim.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Faróis da vida


[Dedicado aos amigos marítimos]

Vento bravo, eis-me aqui,
Força plena de Poseidon
Que os oceanos enaltece,
Para girar o fiel timão.

Estufo o peito como as velas,
Piso o convés, faço oração
Ouço firmes os motores
Máquinas vivas, coração.

Pode fincar n’areia
As lágrimas, o barco, a saudade
Se quiser singrar os mares
Sem enfrentar as tempestades.

Minh’alma e do navio
Entrelaçam-se no cais
Onde esperam-me amores
Faróis da vida, meus sinais.



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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A-deus


Viajei por muitas horas para visitar um grande amigo, que me aguardava em sua mansão. Ele havia se tornado um homem empreendedor, reconhecido pelas suas habilidades e carisma. Receber-me-ia para matar a saudade da infância, da adolescência, dos tempos de colégio e dos últimos momentos que estivemos juntos, antes de partir em busca de seus objetivos.

Ao chegar, permaneci vislumbrado com o paraíso que o cercava. Tudo tinha mudado em sua vida. Meu humilde amigo se tornara um poderoso indivíduo na sociedade, com direito às regalias mais fúteis que poderia ser preparada aos seus pés. Agora, com 33 anos, a soberba havia lhe serpenteado.

No jardim do palácio havia crianças inquietas correndo sem direção, por entre as estatuetas de famosos imperadores do mundo. No saguão de entrada, recebia-me de braços abertos um personagem num quadro pintado detalhadamente: era ele, o cara que cresceu comigo. Mas seu semblante transbordava soberba, capaz de intimidar quem fosse incomodá-lo.

Na sala, duas escadas posicionadas simetricamente nas laterais confundiam os lados que eu deveria seguir. Luzes fortes no centro; não reparei mais nada nesse cômodo, além dos degraus. Subi pelo lado que minha intuição indicava, até chegar num corredor longo, repleto de vasos de rosas amarelas. Ouviam-se gargalhadas distantes, aproximando-se à medida que meus passos pesados fincavam o chão. Lá no fim do corredor ficava o salão nobre.

Para a minha surpresa, chamou onze sócios em sua casa, todos me receberiam no jantar. Na mesa, cabiam doze. E o meu assento me esperava de frente para o anfitrião, como uma baixa meretriz seduz um homem. Sentei-me, meio contrariado, devido ao excesso de elegância pressionada pelos lustres e tapetes caros sob meu queixo.

Os caras cochichavam a meu respeito, sem a pretensão de disfarçar tal indelicadeza. Cochichavam com meu amigo, agora outra pessoa. Mais gargalhadas, cada vez mais altas! Suas taças brindavam a arrogância, o chacoalhar dos vinhos arranhava minha mente. Meu sorriso era forçado bastante, enquanto minhas mãos esmagavam-se de ódio por baixo do pano.

Minha presença se tornara cada vez menor, desprezível, ao ponto de, por breves instantes, ignorarem-me. Mesmo assim, engolia secos aqueles homens pedantes. Passavam pratos e talheres, as conversas fúteis, a minha vontade de estar ali, as horas. As serventes eram debochadas, depravadas, salientes. Da copa, vinham mulheres robustas e encorpadas nos servir mais de luxúria do que da culinária.

Após a refeição, seus sócios participaram de um ritual estranhíssimo. Ajoelharam-se aos pés do chefe, agradecendo-lhe o convite. Enquanto isso, a figura enaltecida gabava-se, pedindo mais adulação. Que cena grosseira! Fui obrigado a me ajoelhar com eles. Olhando nos seus olhos – olhos vazios e irônicos que me desarmavam – fui descendo, até me juntar com seus subordinados.

Cuspiu meu rosto.

Todos riram do acontecido e aplaudiram seu Mestre. Passei a mão na sua saliva que escorria pegajosa, olhei ao meu redor e levantei-me. Saí do cômodo, caminhei o corredor infindável, desci a escadaria correndo, passei pelas crianças, filhas das serventes seminuas, que tropecei, agarrando-se no jardim, passei pelo portão sem trancá-lo. Parei ofegante do lado de fora. Virei para olhar a casa e fitei, através da janela, seus olhos vermelhos à espreita.

Caminhei até a esquina e, sem que me notassem, sumi num trovão estrondoso. No caminho, refleti que a humanidade não está preparada para receber nenhum deus que seja. Eu havia me tornado um deus e vinha salvar a humanidade. A esperança morreu, foi a última. Adeus a deus.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Enquanto o papel queimava


Enquanto o papel queimava
Pensava em nós amantes
No barulho da chama acesa
Que consumia nossos braços.


Enquanto o papel queimava
O desejo de beijar seus olhos
Passeava na minha paz
E furtava minhas sensações abstratas.


Enquanto o papel queimava
O gosto poético dos seus beijos
Hipnotizava minha canção
De amor infinito, ainda que vivo.


Enquanto o papel queimava
Sentia os resquícios da paixão
Outrora fulminante e fiel
Que pairava no ar asfixiante.


Enquanto o papel queimava
O corpo vil dessa terra
Contorcia-se de amargura
E, puramente, mergulhava fundo.


Enquanto o papel queimava
Mão e pés adormeciam
As palavras secavam
O coração ruía.


Enquanto o papel queimava
Lágrimas ardiam o peito
Dilaceravam a face
Molhavam o vão.


Enquanto o papel queimava
Meu amor morria junto da chama acesa,
Das cinzas densas, da minha lucidez, de você.
Enquanto o papel queimava nas minhas mãos.

domingo, 14 de outubro de 2012

Carta ao desespero



Seria tão simples e compreensível se tu me disseste a verdade!

Quando eu soube da sua atitude fajuta, senti todo o meu afeto se espalhar como um ácido num conta-gotas. Uma sensação carregada de ira. Não sabia do que poderia ser capaz, caso te visse novamente: talvez beijar-te. Pior por ter sido a segunda vez que colocava a minha confiança à prova, renegando minha consideração.

Lembrar-se dos nossos beijos embaixo de tempestades e eu dizendo baixinho no seu ouvido “quero te amar pra sempre” agora dói tanto. Minhas lágrimas se confundiam com as gotas que caiam dos céus, mas você não percebia. Nossa relação era uma ferida exposta, sensível ao toque – ao meu e ao seu. Abraçar-te era ninar o universo que os cosmos reviravam. Mas o universo sempre foi grande demais para caber nos meus braços e me escapuliu.

Carrego aqui comigo, bem escondido com vergonha de perceberem, o pingente com sua foto, é o que me resta. Lembra-te quando me deste ele? Era dia dos namorados e nós completávamos mais um ano juntos. Você ficou com a minha foto e eu com a sua. Recordação e lembrança que nunca foram tão úteis como neste instante que me desespero.

O que mais me entristece é que não terei mais ninguém para ler meus poemas de manhã cedo, nem a quem dedicá-los porque você era a minha inspiração, tudo o que sempre sonhei encontrar. É difícil e angustiante sentir seu cheiro no travesseiro, com um vazio na cama. Já revirei cada canto do lençol que te abraçava.

Queria ouvir a porta batendo e você vindo em minha direção, arrependido, jurando-me amor eterno, chorando nos meus olhos e me apertar pelos braços, enquanto me beija. Isso me bastaria em várias noites de insônia.

Então apago as luzes. O nosso quarto torna-se um nada vazio e traduz exatamente tudo o que tu deixaste para mim. Paro na janela. Acendo um cigarro, depois dois, três e quantos mais, a sua espera. Caio em mim, percebo que não voltas mais. Despindo-me de ti, penso alto: é só um sonho. O fim do sonho que fomos juntos.


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domingo, 7 de outubro de 2012

O circo levou


Numa bela tarde de domingo, avistei o comboio circense entrando pelo bairro. Era tudo mágico: cavalos enfeitados, palhaços sacanas, anões exibidos e mulheres quase despidas. O barulho causado pela trupe desconcentrou os moradores. Bumbos e cornetas explodiam de felicidade. As crianças corriam para alcançar as carretas extravagantes.

Quando passou pela porta de minha casa, fui envolvida pela infantil fantasia e corri, também, atrás da carreata. Aquele momento tornou-se a festa-de-todos-nós.

No dia seguinte, acordei cedo para admirar a superestrutura montada na pracinha central. As lonas estavam içadas, os personagens tinham as caras limpas, os animais domesticados dormiam contra a vontade. As cores eram o combustível da minha imaginação e isso me fascinava tanto!

Esperei sentada na grama, até que alguém do circo aparecesse. Não poderia deixar a oportunidade de lado e pedi: “Moça, como faço para entrar na arena?”. A senhora com feições de cigana respondeu-me: “Só precisa acreditar na sua criatividade e será sempre bem-vinda”. Meus olhos encolheram e ficaram miudinhos, até se fecharem. E assim minha infância veio à mente.

Sonhei com malabaristas equilibrando a graça do espetáculo; trapezistas voando livres e presos às mãos fortes; mágicos fazendo sumir e reaparecer, como poderiam fazer com a minha presença ali. A lona azul, a arquibancada cheia, algodão doce, luzes intermitentes, pipoca, alegria e eu no meio de tudo isso observava o show.

Quando abri os olhos, o céu era a lona e as estrelas, luzes. Então levantei para me aprontar. O espetáculo começava. Mas a vida não tinha parado. O relógio que acelerara.

 Ao voltar, senti uma vontade enorme de seguir com o circo pelo mundo afora, posto que o medo tomasse meu ser, porque o circo, assim como a vida, passa, mas não fica. E, por isso, devemos levar alegria a todo canto.

Decidida, entrei e fui falar com a moça que havia me recepcionado antes. Ofereci qualquer habilidade que supus adquirir. Em contrapartida, aplicou-me um teste. Se eu passasse, poderia seguir com eles.

“Senhora, o teste é bem simples. Você vai entrar naquele picadeiro e fazer todos chorarem de rir. Invente algo que marque os espectadores. Boa sorte!”

Parei para pensar num canto, milhões de sugestões vagaram minha cabeça, mas nenhuma seria capaz de produzir o efeito esperado. Piadas não seriam suficientes. Criei coragem e enfrentei meu receio. Caminhei até o centro, com um foco de luz na minha cabeça. Tinham centenas de olhos em mim e isso me incomodava. Improvisei:

“Eu tenho um poder incrível: aprendi a voar como uma borboleta.”

E as pessoas riram escandalosamente. Ouvir isso soava ridículo demais. Prossegui:

“Vocês também podem voar como uma borboleta. Fechem os olhos e imaginem. É esse o segredo. Quando menos notar, voando estará.”

Fechei os olhos para demonstrar, enquanto narrava o que se passava em minha mente. Contei da minha infância e dos meus amigos. Do prazer de estar ali, de ser uma grande domadora.

Quando despertei, o espetáculo já havia acabado. As pessoas não se interessaram pelo meu número. Sonhar não tinha graça.  O holofote se apagou e fui convidada a sair. Na porta, olhando para traz, chorei ao ver meu sonho sendo apagado, junto com as luzes. O circo se fechara com meu sonho lá dentro, agora esquecido. Levariam ele para bem longe de mim.




sábado, 29 de setembro de 2012

Espelho meu


Deitado no chão eu só via a infiltração que decorava o teto. Tinha cheiro de mofo impregnando o ambiente, ruídos de insetos, uma música vazia que me machucava.

Um espelho e pouca iluminação eram o que me cercavam.

De relance, olhei para a minha imagem, brotando à medida que minha coragem permitia observá-la. Olhos fundos, boca seca, cabelos desarrumados. Sujo.

Levantei para conferir de perto meu rosto. O reflexo não me acompanhou. Então parei perplexo vendo aquele ser estirado e sem ânimo para erguer-se.

As gotas que rolavam e tocavam a sinfonia da solidão seriam incapazes de ressuscitar a imagem.

Bati no espelho com as pontas dos dedos, temendo sua fragilidade. O vidro estremeceu, mas sequer comoveu quem permanecia imóvel. Deslizei meu corpo sobre o espelho, rosto, mãos, ouvidos. 

“Por que não alcançá-lo?”

Desejei não estar ali. Procurei a saída, sem sucesso. A escuridão era severa demais para isso.

Bati no vidro. Nada.

Alguns ratos transitavam sobre o corpo que jazia. Eu me reconhecia nele, era eu mesmo. Porém um abismo tênue nos separava. Por esse abismo nem a sombra ousava passar.

Minhas roupas, rotas, pesavam minha consciência e dificultava meus movimentos – olhar e não ver. Forcei um choro porque a sede sucumbia à carne. As lágrimas eram fontes de água limpa. Mirei cada pingo na língua cansada exposta.

Toquei o vidro. Bati forte. Gritei meu nome. Abri e fechei os olhos infinitas vezes. Imaginei minha existência. E fracassei.

Sentei no chão com as pernas cruzadas. Agora de costa para o eu-deitado. Vez ou outra olhava para trás ao ouvir a canção que ecoava. Um som afiado cortava meus pensamentos em pedaços. Partia-me ao meio. O barulho do vazio que existia mim.

Subitamente, levantei e virei-me ao espelho. Não havia mais o homem por lá. Nem mesmo o som.  Sozinho por completo, preso deste lado, penetrei na ausência do reflexo.


Percebi que a imagem era eu, e nunca fora ele.



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Adeus à saudade



O nascer é o falecimento lento
De cada movimento do rosto
Esmaecendo em sorrisos que tento
Esconder as lágrimas sem gosto.

Talvez a morte não mereça preocupação
De um lado que desconheço bem
Seja essa a grande solução
Para levar-te daqui ao além.

Quando tu decidires morrer,
Jure, cruzando os dedos, levar a saudade
Que não suportarei com ela viver
Ao abrir os olhos e recordar nossa amizade.

De repente eu acorde na sua presença
Ouvindo o fulminante piscar dos olhos seus
E tentar tocar-te na esperança
De quem morrera fui eu.


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domingo, 23 de setembro de 2012

A mulher de burca


Nas férias de fim de ano, embarquei rumo a Swat, no Paquistão, em busca de fomentos para o livro que escrevi sobre a condição feminina e os neotalisbãs. Antes de partir, marquei um encontro com uma jornalista censurada que fornece informações sobre a vida no país islâmico. Mas tudo foi cautelosamente tratado, pois as regras continuam rígidas para as mulheres daquele lugar: não podem sair sem a escolta de um homem, não tem acesso à escola, nem à saúde digna. E o mais grave: andam cobertas de véu, da cabeça aos pés. As pessoas não as conhecem senão como um monte de tecidos disformes.

Combinamos no hotel que permaneci hospedado. Obviamente, ela compareceu acompanhada do irmão, apoiador do seu trabalho.

Quando chegou, fiquei sem jeito para tocá-la. Não soubemos como proceder e, então, cumprimentamo-nos apenas com um “olá”. Simpática, a moça pediu ao irmão que desse uma volta pelo quarteirão. Ela estava disposta a me ajudar!

Vê-la – ou não vê-la – sob panos causava em mim um incômodo ácido durante a conversa. Só era possível ver a sombra dos olhos e a pontos dos dedos.

Por uns minutos, tentei organizar todas as perguntas embaralhadas em minha cabeça por causa da sua imagem perturbadora.

– Como te sentes embaixo desse traje? – essa foi a pergunta que me veio primeiro.


A moça inclinou a cabeça, como quem olha para baixo.

– Nunca tive a oportunidade de vestir algo diferente. Meu pai sempre me obrigou a usar a burca, assim como a minha mãe. Não temos o prazer da vaidade. – respondeu-me com naturalidade.

Pensei que era comum tratar desse assunto e responder as mesmas indagações.

Depois disso, discutimos sobre uma avalanche de assuntos que envolvia terrorismo, autoridade, religião e direitos humanos. As palavras que saiam de sua boca – eu era capaz de imaginar – eram secas, sem emoção, porque também eram proibidas de expor seus sentimentos. Ou seja, não podiam sequer demonstrar afeto a alguém.

Perguntei-lhe sobre relacionamentos.

“A mulher é humilhada pelo homem; às vezes me sinto como uma cadela presa a uma coleira, latindo por comida e atenção”.

Eu sabia que esse “às vezes” foi tantas vezes frequente. Para aquela mulher sentada a minha frente, a vida não revelava o menor sentido. Seus sonhos foram banidos pela raiz, sua sensibilidade era abafada, sua beleza... Ah... Essa ninguém conhecia!

Em um momento, interrompeu o assunto para ir ao lavabo. Demorou alguns minutos. Voltou e sentou-se novamente.

E o silêncio de novo: havíamos quebrado a linha de pensamento.

O mistério daquela moça era um fascínio. Eu queria sentir a textura da sua pele, olhar nos seus olhos e descobrir a verdade que ofuscava seu passado.

Peguei sua mão. Que mão leve e sedosa! Mão de quem nunca apedrejou.

Insinuei beijá-la, como um cortejo de um Barão a uma Dama. Porém, ríspida, ela puxou de volta, enroscando os dedos de uma mão com os da outra. Minha atitude desarmara a mulher!

Singelamente, segurei-a firme, passando pelo meu rosto. Tinha um perfume silvestre e delicado.

Ameacei levantar seu véu do rosto, a espera de alguma reação que desaprovasse minha loucura. Não! Não fui impedido. Os segundo eram longos. Tirei a capa e suas lágrimas rolavam na sinfonia do seu pranto calado.

Olhar profundo que me angustiava, lábios inocentes. A moça era linda demais!

Ao acariciar seus braços, notei cicatrizes estranhar. Todas com forma de coração.

– E essas marcas? – perguntei assustado.
– É o amor à flor da pele! Esse é o meu limite. O amor morre em mim. Cada vontade de amar é um registro que vês. Eu não posso sentir isso, então me castigo.  – respondeu.

Ainda havia uma ferida aberta, estava sangrando. Ela tinha se cortado quando pediu para se levantar. O coração estava vivo pulsando. Era o meu.

A mulher de burca mostrava-se sem mistério.

Choramos juntos. Abraços apertados. Olhos nos olhos; respiração aliviada; vontade de cuidar.
A campainha gelou o momento. Era o seu irmão de volta, visto que não deveriam demorar fora de casa.

Foi-se com um olhar de adeus.

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Meu voo de partida sairia na manhã seguinte. Então chamei um taxi bem cedo para me levar ao aeroporto. A história que vivenciei permanecia nítida na minha cabeça. Mas, confesso, não pretendia esquecê-la! Nem a história, nem a mulher.

Chegando ao aeroporto movimentado, caminhei em direção ao saguão de check-in a fim de agilizar o processo de embarque. No guichê, deparei-me com a jornalista. Minha viagem prometia muitas surpresas, só essa foi marcante.

Ela trajava um suéter preto e uma calça cinza-escuro e um sorriso estampado.

Disse-me que queria fugir comigo para o meu país, pois não suportaria mais viver sob aquele regime. Então veio disfarçada de turista, arriscando a sua vida e a minha, caso nos pegasse.

“Já comprei minha passagem para o mesmo horário que a sua. Precisamos continuar a história que começou aqui. Eu quero ser feliz ao seu lado!”.

E me agarrou e me beijou e reclamou baixinho ao pé do ouvido. A cena nunca fora comum naquele ambiente traiçoeiro.

Partimos sem atraso e com muito entusiasmo.

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Quando chegamos ao meu país, fomos à casa dos meus pais. Eles precisavam conhecê-la, porque eu queria mostrá-la ao mundo inteiro!

Hoje esta bela mulher tornou-se minha esposa e também a capa do livro que foi sucesso no lançamento. Está aqui ao meu lado enquanto escrevo esta experiência.

Ensinei meu idioma. Aprendi a aceitar seus costumes. Tomamos café no fim da tarde, enquanto releio as histórias do livro para ela. São histórias inesquecíveis e repassadas a cada dia.

 O coração, que antes chorava tristeza, me acalenta. Percebi que o amor não pode ser uma cicatriz, porque ele é vivo. Portanto, arrisque-se onde quer que seja!



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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Raio de sol


[Dedicado à Natascha]

Pela manhã, ao subir a ladeira do Chapéu Mangueira, deparei-me com um rapaz jovenzinho sentado numa cadeira de rodas. Aparentava ter 20 anos. Era negro, cabelo raspado, olhos serenos, roupas simples e com dificuldade para operar a engenharia que o transportava. Tinha uma áurea transparente.

Percebendo o seu incômodo, ofereci ajuda para deslocá-lo ao destino que desejava. De prontidão, aceitou e seguimos em frente. Realmente manejar aquele carro-portátil não foi nada fácil. E isso impregnou minha cabeça até o topo do morro, onde paramos. Lá de cima, era possível admirar toda a praia de Copacabana – belíssima, diga-se de passagem. Ainda assim, vê-lo sobre o obstáculo com rodas me consternava.

– Olha que maravilha! Esse aqui é o lugar onde mais gosto de estar. Traz uma paz tão forte, que eu consigo senti-la em mim. É fria, assim como esse vento nas orelhas. Consegue perceber também? – expressou-se com entusiasmo.


- Sim, claro. – balbuciei. – Imagine morar com essa vista, poder assistir ao pôr do sol, ou ver os navios passeando no horizonte... É lindo mesmo!

Um silêncio perturbador no tempo.

 - Minha irmã adorava estar aqui. Vinha pela manhã, todos os dias. Lembro-me das vezes que viemos juntos e ela sempre fazia um pedido em silêncio, quando via o sol nascendo. – sorriu timidamente.

 - E por que ela não o acompanha, agora? – indaguei, com tom de dúvida.

- Infelizmente não se encontra mais entre nós. Sempre venho aqui para encontrá-la. Ela assopra nas minhas orelhas e volta para o infinito. – respondeu-me, esmaecendo o semblante.

- E o que houve com ela? – perguntei.

– Ela caiu daqui de cima, em uma dessas manhãs que vinha fazer seus pedidos ao sol. Completava 15 anos de vida. Nesse dia, solicitou ao sol que a permitisse tocá-lo. E foi-se. Não deu tempo de contê-la e evitar o acidente. Caí também!

- Que triste isso tudo! Tentar tocar o sol... Pelo menos ela está no céu! – disse ao rapaz, na tentativa de consolá-lo.

- Pois é. Ela não resistiu e partiu. Mas continuo com essa sequela que me vês. Um dia seguiremos juntos como um raio de sol que a levou em direção ao infinito. Permaneço esperando que me leves. E isso é o que mais desejo! – retrucou, com os olhos brilhantes.


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Fotografias.
Local: Chapéu Mangueira/ RJ.
Por Dimitri Duque.















domingo, 16 de setembro de 2012

Pau-brasil

[Dedicado ao Luã Marins]

 “Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...” Castro Alves


Mil setecentos e sofrimentos.

Recordo-me do exato momento que pisei esse solo ingrato, após dias na iminência de falir-me no porão do navio que me trouxe à força.

 Palavras de boas vindas? Ofensas e escárnio.

Cumprimentos calorosos? Apenas o chiado do couro e do ódio na minha pele-café.

Fui obrigado a seguir com meus compatriotas acorrentados, fazendo fila, em direção a uma movimentada rua da capital.

O sol reluzia mais que ouro, mas o céu estava nublado em mim.

Sem água, meu sangue na boca matava a sede.

 “Réis... réis... réis...”

Nossos corpos eram produtos disputados e nossas almas devolvidas ao limbo.

A primeira noite na fazenda foi marcante: 80 chibatadas para registrar a identidade do território. Nem os pretos velhos escaparam da crueldade que enchia de fascínio os olhos dos bichos-do-mato. As mulheres sofreram bem menos, com apenas 70 açoites. Pode parecer indiferente, mas cada lanhada feria muito mais que qualquer aparência física; era uma questão de vontade de viver e isso ninguém tinha. Ninguém!

Numa tarde, avistei o Senhor Coronel passeando com sua filha pelo jardim do casarão.

Moça bela, rosto aveludado. Não me olhou.

Descobri a ternura do encantamento e meu anseio pela aproximação foi maior. Enfrentei os riscos e, então, cheguei até ela:

“O sangue do chicote, guarde para ti,
Pois enquanto as úlceras se abrem no dorso,
Meu coração, mudo, bate no peito, morto
E, em um suspiro, posso partir.

Antes dos meus olhos tornarem-se escuridão
Ou dor pesada de um açoite
Digo-lhe, sinhá-deusa, que baila na noite:
Tu és perfeita, nuvem, clarão!

Não matam, acalentam tuas mãos.
A voz soa como uma brisa que lambe.
Atente-se ao gotejar do meu sangue
Caindo vazio e torpe no chão.

Ao dormir, querida moça, não pense tristeza,
Porque a força d’Oxúm te protege na mata.
Mas não é capaz de tirar-me da senzala
Onde rastejo a vida sem ver tua beleza.”

Imediatamente, o Coronel ordenou uma punição pela minha audácia. Mas o castigo seria bem mais que a mim.

Amarrou todos os escravos no meio, deu voz de partida aos capatazes e a dança das chibatas entrou em cena.

Sofreram por minha causa. A culpa que carrego nas cicatrizes.

O afeto – que parece divino – sumia enquanto nos maltratava.

Rezávamos para ver a lua e suas estrelas, por Euzébios e Isabels, que não viriam.

Prometi e repeti aos prantos: “ódio e não amor!”.

Até permanecer imóvel, sem significado.

Só o chão gelado da senzala aliviava, ao dormir, as dores do tronco – o pau-brasil.



* Texto inspirado no musical de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri: "Arena conta Zumbi".


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sábado, 15 de setembro de 2012

A viagem


“Nosso relacionamento durou o suficiente”, disse Giorge com lágrimas e um sorriso esgueio, bem discreto. “Foram os dias mais intensos que vivi, estive realizado”, completou. De fato, teria sido apenas um relacionamento convencional se não envolvessem duas almas entrelaçadas. Foram sete meses calorosamente aproveitados e muitas marcas deixadas. Cicatrizes profundas que doem por dentro e realçam a aparência de um passado atormentador.

A história começa bem antes da primeira palavra trocada. Em plena sexta-feira, hora do rush, trem lotado, trabalhadores suados, cansados, desmotivados. Sentado a minha frente estava Michel e ao meu lado esquerdo, Giorge. O primeiro, a olhos vistos, enroscava-se na sua essência deprimida. Uma áurea triste, ao passo que misteriosa. Era bem novo. O segundo era decisivamente austero e vazio de alguma coisa indecifrável. Aparentava experiência de vida. Já havia os encontrado uma série de vezes seguidas, coincidência ou não.


Seus destinos confabularam um indolente encontro de olhares, isso não se imaginara.

Numa dessas viagens, Michel chorava sem barulho, porém não racionava expressões de rancor. E essa profundeza humana, o pranto, comoveu Giorge, fazendo-o se aproximar e oferecer ajuda ao rapaz consternado. Algumas pessoas ao redor, observando a situação – ou fingindo não senti-la – ignoravam e davam de ombros ao garoto.

- O que se passa com você? Vejo-lhe de longe, sua tristeza está me contagiando. Precisa de um ouvido para escutar seu desabafo? – perguntou baixinho, a ponto de eu quase não conseguir ouvi-lo.

Michel levantou a cabeça, em um ato que demorou o tempo de os olhares se encontrarem.

- Não consigo mais sofrer. Essa angústia que me impuseram é maior que eu. Minha família não me ama mais, meus amigos se afastaram. Nem mesmo eu me suporto dentro de mim. - respondeu com a voz trêmula, e voltou a chorar.

- Por que te sentes tão desprezado? Desonraste teus pais e os que estão contigo? – interrogou com um ar de dúvida, afinal estava interessado na vida do menino, a partir daquele momento.

As lágrimas caiam enquanto balançada a cabeça em sinal de negação, olhando cara a cara. Passou a mão do rosto, secando-se, e retrucou, com um pergunta pesada como um chumbo:

- O senhor deixaria de gostar de um filho que fosse homossexual?

O semblante derreteu. O queixo caiu. O olho brilhou. Não esperava tamanha franqueza numa pergunta tão incômoda.

- É... Acho que aceitaria, sim. – respondeu sem jeito e sem disfarce.

- Pois bem!  Esse é o problema que devasta minha vida. Ninguém me compreende. Quando resolvi contar, imaginei ser acolhido e apoiado pelas pessoas que tinham afeto por mim. Esse foi o retorno que obtive: fui jogado num deserto, sem água, sem comida, sem estrutura para dar um passo sequer. Não sei o que fazer...

Certamente, as circunstâncias ali nunca fora comum para o homem maduro que descobria mais um poder que detinha: solidariedade.

- Vamos lá pra casa, você pode ficar por um tempo, até sua vida guinar para o rumo certo. Não precisa se acanhar, mas também não é nenhum luxo. Poderá ficar à vontade. Moro num sobrado que pertencia a minha mãe, falecida no ano passado. Dou minha palavra, sou um homem honesto.

- Jura? Não sei como agradecê-lo. Devo meu respeito e minha admiração pela sua presteza. Muito obrigado mesmo.  Minhas condolências pelo acontecido. Prometo não passar de uma semana hospedado e arrumarei minha vida novamente. Só Deus sabe como!

Já haviam passado todas as estações, antes de descerem. Lembro-me da imagem de um homem alto, robusto, do couro branco, segurando o braço de um jovem delicado da pele preta. Saíram em direção à rua, à padaria, ao lanche, ao lar, por fim. Entraram.

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Michel morou ali por seis meses, posteriores. Resgatou sua felicidade, conseguiu um emprego e fortaleceu suas responsabilidades. Giorge, ao perceber seu amadurecimento com a convivência, permitiu que continuasse naquele lar pelo tempo que durasse. E assim aconteceu.

A rotina não mudou. Ambos acordavam cedo, trabalhavam no mesmo horário e regressavam juntos pela via férrea. Dividiam os problemas, as dívidas e as vontades. Tornaram-se grandes amigos, com uma interdependência indestrutível. Eram sinceros, eu percebia quando os via sorrindo no vagão.

Com cinco meses de idas e vindas, comecei a perceber que o menino emagrecia, enfraquecera um pouco. Mas a relação deles permanecia inabalada, íntegra. Vez ou outra se ouvia apenas suas tosses, pausando a conversa interessante que travavam. E sempre assistia aquela cena do jovem sendo levado pelo braço, ao sair do veículo, carinhosamente.

Um mês após esses dias, percebi que Giorge passou a andar sozinho, após o trabalho. Pegava o trem, ficava inquieto. Exalava preocupação. Certa vez, ouvi-lo comentar ao telefone sobre o rapaz que não estivera com ele mais. Dizia a outrem que este permanecia em casa, recuperando uma gripe forte que o acometia.

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A primeira vez que cruzei com o senhor mais velho no meu trabalho foi numa quarta-feira à noite, cerca de seis meses após a cena que me marcou, ao vê-lo disponibilizar seu braço estendido ao menino em desespero. Depois desse dia, tornou-se constante a sua presença no hospital. Quando chegava para o plantão, reparava a tristeza que o tomava por inteiro. Fazia o possível para atender o rapaz, agora debilitado, o mais rápido.

- Ele vai ter que ficar internado. Do jeito que está, é melhor ter um acompanhamento mais de perto. Ele não está nada bem. Está tomando todos aqueles remédios que devem ser tomados pontualmente? – perguntei a Giorge, agora mais perto de mim do que pudera imaginar.

Ver aquele rapaz saudável do trem daquela maneira me angustiava. Agulhas, medos, soros, oxigênios, solidão. O tempo que Michel foi mantido internado, sua saúde estabilizou, ainda que num nível inferior ao desejável para um quadro clínico saudável. Sendo assim, recebeu alta e o direito de passar seu aniversário em casa.

Comemoraram com moderação, felicidade e esperança. Sentaram-se frente a frente, muito satisfeitos com a oportunidade de estarem juntos novamente no ambiente que foi cenário de inesquecíveis lembranças. Relembravam momentos engraçados, difíceis de lidar, segredos repartidos, juras eternas. Giorge fazia cócegas em Michel, que ria com a pureza de um anjo alado.

Brincaram de adivinhar pensamentos. Giorge vendou a visão de Michel com suas mãos. Mas o menino não conseguia decifrar qualquer coisa. Revelou a resposta, então, no tom de ternura, dizendo que o amava e pensara nisso nos meses que se passaram. Retirou os dedos do seu rosto e disse:

- Vou te amar além dessa vida!

Michel não abriu mais seus olhos. Giorge tentou adivinhar o significado da lágrima que escorria do rosto pálido que esmaecia.

Ao ler uma carta que estava no bolso de Michel, Giorge percebeu que a água que rolou naquele rosto dócil fora de arrependimento. A doença que o definhou dava continuidade.

“Sinto muito, meu herói. Não tive coragem para lhe dizer o segredo que me batia com sete tapas de terra. Todas me empurrando chão abaixo. Eu adquiri um vírus mortal e inescrupuloso. Agora é você quem vai carregá-lo por culpa minha, mas essa não é a herança que deixo para ti. Viva com o amor verdadeiro que devotei em nós. Vamos nos encontrar outra vez no mesmo vagão, em direção a um lugar desconhecido. Obrigado por tudo!”


Giorge chorou com todas as forças que ainda o estruturava. Aquelas palavras demoliram-no. Afundou-se na tristeza mais e mais e mais. Dias após dias. Vidas após vidas. Queria ir de encontro ao seu companheiro.

Tivemos um único encontro, após o funeral, quando fiquei sabendo detalhadamente o que acontecera. Desde então, ele esperara a hora do embarque. A viagem estava mais perto do início do que pudera imaginar.

"ESTAÇÃO DE EMBARQUE". Leu em pensamento antes de seguir em viagem, certo dia.


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Penitência














Sufoca-me nesse lugar estreito – via crucis – onde cabe seu amor

E me rastejo mendigando sua pena de joelhos e rosto.

Espaço cruel e áspero fere-me aqui, eu sinto.

Não há mais forças,
Nem vontade,
Nem eu
Só.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Além dos olhos


Avistei o rapaz por acaso. Era bonito, formoso, bem educado, alto. Fitei-o nos olhos por alguns segundo sem que me percebesse, estava distraído. Então surgiu uma coragem que há tempos não me cumprimentava. Caminhei até a sua direção e, num gesto singelo, sorriu-me tão espontaneamente quanto ingênuo. Apaixonei. Ali. Parei. Perguntei-lhe o nome, era de profeta. Até que surgiu meu convite para sentarmos e tomarmos um café na confeitaria perto de onde estávamos. Era numa praça, dessas que se encontram vários bustos e aves famintas. E não sei por qual motivo ele aceitou. Juro! Talvez carência, pena da minha carência, carência de dizer não. Sentamos e logo lhe perguntei se sabia tocar o violão que carregava numa espécie de maleta para instrumento. Fui surpreendido com outro talento, até então latente na ocasião. Dedilhou e canto, mas cantou com tanta doçura, semelhante a um coral das melhores vozes que eu já ouvira. “Conte-me outra música, se não for pedir muito”. Apoiei o rosto sobre a mão, sobre a mesa. Sabe quando você fica admirado com algo? Pois bem, eu estava mais que admirado, era, de fato, apaixonado. Paixão à primeira vista, aquelas coisas de filmes românticos. E cantou... Cantou... Cantou, até eu pedir para parar. Queria vê-lo novamente, outro dia, no dia seguinte. E assim o fez. Por mais três semanas, reuníamos no mesmo lugar, às vezes no banquinho da praça, mas era quase um ritual ouvir o som que sua alma emitia. E depois dois meses e ele já frequentava minha casa, porque eu insistia. Queria tê-lo bem perto, queria que fosse meu bibelô, era tão delicado. Desde então, uma relação de afeto havia se consumido; eram comuns beijos e abraços, amasso. E isso me completava, virou um vício. Certo dia, numa dessas visitas, um sarau particular, beijou-me com ardência. Pegou-me com força, abraçou-me como se seus braços dessem várias voltas em meu corpo, atando-me ao seu peito. Cedi, por instinto e por desejo. Beijei seu pescoço, e mais e mais e mais e tirei sua camisa ele tirou a minha e muitos beijos se encontravam despimo-nos por completo. Fitou meus olhos como quem enxerga por além. Isso havia me desarmado naquele instante. Deitei sobre seu corpo, tal ponto a ouvir a pulsação da circulação sanguínea. Tomou-me as entranhas, exalava hormônio e muito prazer. Corpo a corpo a alma a corpo a tudo que estávamos propostos a aproveitar. E parecia uma eternidade, um infinito o qual não queríamos nunca alcançar, mas caminhamos compassados até ele. O suor no rosto, as pupilas dilatadas, a loucura iminente, o aperto da carne, a ardência, o tremor, o temor pelo fim. Tudo brindava com nossos corpos. Gritei sem um ruído, só as respirações cantavam naquela cama. E dormimos, apesar de tudo. Na manhã seguinte, despediu-se de mim, dizendo que voltaria à noite. Mas até agora nada do seu perfume, nem da sua canção, nem do seu adeus. Essa noite se tornou infinita, um túnel escurecido sem direção. Agora caminho sozinho a procura da saída. E caminho, apenas, sem destino, com o coração na mão, o peito aberto e lágrimas nos olhos. 

domingo, 9 de setembro de 2012

Pesadelo de amar


Estava no olho de um furacão quando notei que não tinha mais coração.

Essa carne musculosa, cansada de bater e apanhar transformara-se em sangue vivo,

Morto de esperanças.

E não havia mais amor e era estranho girar e girar e não observar sentido e movimentos.

Que burrice que cegueira me entorpecia!

Que loucura besta!

Que mania de pisar as nuvens quando nem andar sozinho

Eu aprendi.

Sinto pulsando na minha pele, esse couro recrudescido e tão teso,

Tudo que sobrou escorrendo...

Uma trilha que não acaba.

Então adormeço e caio em mim de novo.

Abro os olhos, meu olho de furacão enxerga de novo.

sábado, 8 de setembro de 2012

Visita surpresa


Acordei com uma corda no pescoço, as mãos e os pés amarrados nas extremidades da cama, totalmente nu. Mas não me lembrara do que havia acontecido até o instante anterior ao abrir meus olhos. Pensei por uns segundos, ainda que assustado e impossibilitado de imaginar qualquer situação capaz de encadear naquele estopim, mas não concatenei nenhuma coerência.

Então ouvi a porta arranhando no chão de madeira, estava sendo aberta por alguém. Ouvia-se o eco dos sapatos com saltos, que se chocavam contra o chão, respeitando a regência de quem os conduzia. E virei os olhos em direção à entrada, tentando identificar de quem se tratava, quem me visitou sem meu consentimento, já que eu morava sozinho naquela casa há pelo menos dez anos, e não havia recebido nenhuma visita, até então.

Era branca, branquíssima, da cor da transparência. Olhos negros de sofrimento e os cabelos compridos, fazendo sentido com a sua personalidade, aparentemente inabalável. Trajava um vestido com muito tecido, rouge, sangue vivo, deixando apenas seu rosto e suas mãos à mostra – mãos doces, era notável!


Aproximou-se do meu rosto, invadiu-me intensamente por dentro dos meus olhos, como uma feiticeira hipnotizadora. Não ouvia a sua respiração, apenas a minha, bem  descontrolada. Passou a língua nos meus lábios e foi arrastando sua saliva fria pela minha face quente, roçando num vai e vem tedioso, mas arrepiante.

Voluntariamente, afastou-se de mim, como um furacão devastador passando por uma cidade. Parou para mexer em algo que não estava ao meu alcance visual, mas tinha som de cristal – era uma taça. E trouxe até mim, transbordando um liquido da cor da sua roupa. Ofereceu-me, com generosidade e brutalidade:

- Beba da minha alma!

E isso soou como um trovão. Permaneci imóvel. Só tive força e coragem para saber como chamá-la, antes do primeiro gole.

- Qual é o seu nome? E o que veio fazer aqui? Nunca a vi antes. – indaguei a moça, gaguejando e suando mais do que nunca.

- Sou sua inimiga, a perfeição imperfeita. Sou a carne sangrenta, trêmula e dura. Sou o ódio disfarçado, a paz dilacerante, o desassossego perturbador. Coberta de ironia. Banhada de loucura. Moldada com esperteza. Eu sou a paixão que veio buscar o seu ego!

Foi quando o mundo girou na minha cabeça, confundindo-me por completo. Não me lembrava da última vez que ouvira o som dessa palavra.

P-A-I-X-Ã-O. Soletrei infinitas vezes, até voltar em si e lembrar a situação que me encontrara com aquela mulher dentro do meu quarto, o meu cárcere de solidão.

A partir da tapa no rosto que recebi, meu coração bateu mais rápido, não queria acatar aquela provocação. Era de mais ser agredido pela aquela mão tão delicada. Foi quando ela começou a me dizer o porquê de eu ser o escolhido para passar por aquela flagelação. Eu tinha feito tudo errado durante a vida inteira!

- Você não se permite conhecer a liberdade, sequer chegar à beira do abismo. Há tantas pontes sobre o ele, todas ignoradas, todas imperceptíveis. Caminhe como se fosse voar e, então, você notará que está passando por cima de um desses viadutos. É assim a vida, assim sou eu, muito amiga do amor: devemos arriscar. Digo amiga porque, vez ou outra, a gente se desentende e essas pontes racham. – disse-me tudo tão lentamente, mas ecoava na velocidade da luz, como uma avalanche de flechas espetando minha consciência.

Meus olhos encheram-se d’água e não pararam até transbordar, molhando minha memória de solidão. Eu não tivera amado nada, nem ninguém, de fato. Foram tão ásperas as imagens que vieram até mim. Não parei nenhum instante da vida para me dedicar a amar. Meu coração era virgem, límpido, vazio. Havia se fechado para o mundo, usado as paredes do quarto como escudos, protegendo-me de sentimentos.

Jamais acreditei na possibilidade do “à primeira vista”, mas só até ver a moça do vestido cor de carmim. Fui me dando conta de que a bebida que me fora oferecido estava adulterada, era puro fascínio. Já estava cego.

Minha visão voltou, quando percebi meus membros livres. A mulher permanecia no cômodo, estava despida. Só o batom chamava atenção, além da formosura do seu corpo, naquele momento que admirei sua beleza. Ela veio em minha direção e eu me levantei da cama. Seu cheiro lembrava flores, da época que eu brincava nos jardins de casa. As flores que minha mãe recebia pela manhã, graças a mim. A delicadeza dos seus movimentos me incomodava. Então abracei aquela desconhecida muito forte, não queria deixá-la fugir. E ouvi ao pé do ouvido:

 - Eu sou a mulher da sua vida!

Aquela fantasia já havia se expirado e a mulher era de carne e osso e paixão. Eu estava amando, que sensação nova. Ela estava certa. Eu já amava a moça sem saber. Por isso olhei com toda a sinceridade que me cabia, invadi seu cerne por dentro dos seus olhos e lhe disse:

- Eu sempre te amei, fica comigo, dentro de mim. Está frio aqui fora.

Primeiro

Com muito custo, digo no sentido de força-motriz, o blog vai ao ar.
A ideia surgiu do incentivo de amigos e pessoas próximas que apostaram na façanha de publicar contos, poemas, pensamentos, visões e tudo mais, acreditando ser útil o compartilhamento do meu hobby: escrever.
Estarão presentes, também, a Música, as Artes Cênicas, as Artes Plásticas e a Fotografia!
Sem pretensões, convido-lhes para conhecer o mundo de palavras onde costumo vagar.
Bem-vindos!

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